Por Renata Silva de Carvalho Chinelato, Doutora em Psicologia, Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis/SC. E-mail: renata.chinelato@ufsc.br

Na atual pandemia do Covid-19, a atenção também tem se voltado para o contexto de trabalho, principalmente dos profissionais de saúde. Preocupações e discussões têm sido levantadas em relação aos impactos das condições laborais e de como podem repercutir na saúde mental de tais trabalhadores.

O modelo de Demandas e Recursos do Trabalho (JD-R), proposto por Demerouti, Bakker, Nachreiner e Schaufeli (2001), tem sido referência para compreender como o contexto e também as características individuais interferem, de forma direta ou interativa, em resultados positivos (bem-estar) ou negativos (burnout [1]) no trabalho. Demandas consistem em aspectos físicos, sociais e/ou organizacionais do contexto laboral que requerem esforços físicos e/ou psicológicos dos indivíduos e, consequentemente, geram tensões e outros custos. São exemplos de demandas: complexidade da tarefa, níveis de responsabilidade, conflito e ambiguidade de papéis. Recursos do trabalho, por sua vez, referem-se aos aspectos físicos, sociais, psicológicos e/ou organizacionais do contexto laboral que são funcionais para o alcance das metas de trabalho, razão pela qual estimulam o crescimento pessoal, a aprendizagem e o desenvolvimento. São exemplos de recursos: suporte social dos colegas e dos supervisores, participação na tomada de decisões, autonomia, informação e feedback sobre o desempenho.

Assim, é frequente no dia a dia do trabalho, a coexistência de demandas e recursos. A combinação de altas demandas e de baixos recursos pode impactar em estresse, burnout e outros resultados negativos no contexto laboral, uma vez que, em condições negativas, elas costumam levar ao esgotamento de energia do indivíduo e minar sua motivação. Por outro lado, quando há combinação de altos recursos com altas demandas, os resultados frequentemente relacionam-se ao bem-estar laboral e ao engajamento no trabalho. Nesse sentido, o aumento dos recursos pode atuar como amortecedor das demandas do trabalho.

É o que pode acontecer com os profissionais de saúde no contexto da pandemia. Eles têm se deparado com elevadas demandas laborais, como aumento no número de horas trabalhadas, sobrecarga de atividades, falta de equipamentos de proteção individual ou aumento na recomendação do uso das mesmas, culminando em muitas mudanças na rotina de trabalho. Por outro lado, eles também podem se deparar com um clima de trabalho favorável, em que as pessoas se ajudam mutuamente, uma variedade de tarefas e novas oportunidades de desenvolvimento na carreira. Assim, indivíduos que têm mais recursos disponíveis em seu ambiente de trabalho, tais como suporte social e autonomia, podem lidar melhor com demandas como a pressão do tempo e a sobrecarga, o que contribui, assim, para o equilíbrio entre as demandas e os recursos (Schaufeli, & Taris, 2014).

Há ainda as características pessoais que o indivíduo dispõe e que também podem contribuir para resultados positivos e negativos nas atividades cotidianas. Os recursos pessoais são as crenças dos indivíduos na quantidade de controle que os mesmos têm sobre o seu ambiente. Ao contrário dos traços de personalidade, tais recursos são descritos como estados que podem ser desenvolvidos e geridos para um melhor desempenho no trabalho. Por exemplo, indivíduos com elevado otimismo e autoeficácia acreditam que coisas boas irão acontecer e que serão capazes de lidar com eventos imprevistos. Por outro lado, também existem demandas pessoais, que são requisitos que os indivíduos estabelecem para si próprios como forma de investir esforços em seu trabalho, mas que estão associadas a custos físicos e psicológicos. Dentre elas, estão a instabilidade emocional, o estabelecimentos de metas e expectativas irreais, o que pode comprometer a saúde e a motivação no trabalho (Bakker & Demerouti, 2017).

Em síntese, a teoria JD-R consiste em um modelo dinâmico de fatores responsáveis pelo desencadeamento do estresse e do bem-estar no trabalho, tornando-se relevante para a discussão sobre a saúde mental dos profissionais de saúde na pandemia. Cumpre ressaltar sua utilização em intervenções que, na medida do possível, minimizem demandas de trabalho e pessoais e maximizem recursos laborais e individuais.

[1] Síndrome caracterizada pela exaustão emocional (esgotamento), pela despersonalização (distanciamento e insensibilidade em relação aos diferentes aspectos laborais) e pela falta de realização profissional (sentimentos de incompetência no trabalho).

Referências

Bakker, A. B., & Demerouti, E. (2017). Job Demands-Resources theory: Taking stock and looking forward. Journal of Occupational Health Psychology, 22(3), 273-285. doi: http://dx.doi.org/10.1037/ocp0000056

Demerouti, E., Bakker, A. B., Nachreiner, F., & Schaufeli, W. B. (2001). The job demands–resources model of burnout. Journal of Applied Psychology, 86(3), 499-512. doi: 10.1037//0021-9010.86.3.499

Schaufeli, W. B., & Taris, T. W. (2014), A critical review of the job demands-resources model: Implications for improving work and health. In G. Bauer, & O. Hämmig (Eds.), Bridging occupational, organizational and public health (pp. 43-68). Dordrecht: Springer.