Por Ionara Coelho Araujo.

Psicóloga e Docente de Ensino Superior, Juiz de Fora/MG. E-mail: naraces@yahoo.com.br

A fadiga por compaixão é definida como uma síndrome que atinge os profissionais da ajuda/socorro, por atuarem diretamente com uma clientela em sofrimento (FIGLEY, 1995). Possui como característica um estado de exaustão biológica, psicológica e social que tem como elemento central a prática da compaixão. Prestar cuidados pode levar esses profissionais, aos “custos de cuidar”. Os principais riscos são de sofrimento psíquico e físico, distúrbios relacionados ao álcool/ drogas, síndrome de burnout e a fadiga por compaixão.

Para compreender a síndrome da fadiga por compaixão, foi realizado um estudo exploratório e qualitativo com profissionais de saúde de uma UTI de um Hospital Público de Juiz de Fora/MG. O instrumento escolhido para a pesquisa de campo foi a entrevista semi-estruturada, que explorou o modo como o trabalho é percebido e exercido por esses trabalhadores, os sentimentos experimentados, quais e como são enfrentadas as dificuldades do trabalho, os elementos do trabalho que interferem na vida pessoal e como lidam com a experiência da morte e da impotência.

Os resultados da pesquisa demonstraram que a relação desses profissionais com o trabalho ocorre de forma burocrática e pouco afetiva, muitos optam pelo não envolvimento. Em relação ao sofrimento do outro, observou-se que as técnicas e procedimentos adotados são direcionados para a doença, e pouco para o sujeito-paciente. Constatou-se que a sensação de impotência surge da impossibilidade de salvar vidas e de minimizar o sofrimento do outro. O mal-estar é gerado porque o profissional depara-se com as suas próprias limitações. A relação com a morte é tratada com naturalidade, é encarada como uma “solução” quando não se tem mais nada a fazer, e representa o fim da impotência. Consideram a relação com a família mais complexa do que com o paciente, que é marcada pelo distanciamento emocional, racionalização e evitação. Foram relatadas queixas referentes à ausência de reconhecimento e valorização no ambiente de trabalho.

De acordo com o modelo fenomenológico da Fadiga por Compaixão proposto por Lago (2013) vivenciar uma experiência de compaixão no trabalho pode conduzir a três possibilidades.  Duas dessas opções conduzem à fadiga por compaixão e uma à satisfação por compaixão. A postura mais adotada pelos trabalhadores se refere ao distanciamento emocional, que é a estratégia mais utilizada na tentativa de evitar o desgaste emocional. Outra possibilidade pode ser o desencadeamento de sentimentos de onipotência e impotência. Por último, a satisfação por compaixão é uma saída saudável diante da vivência da compaixão no trabalho.

Segundo Araujo & Vasques-Menezes (2018) essa pesquisa apontou uma preocupação dos profissionais da saúde mais direcionada para a execução de técnicas, procedimentos e intervenção sobre a doença, que pouco se estende para o sujeito-paciente. Foi mais recorrente a presença do sentimento de impotência, a racionalização das relações interpessoais e o pragmatismo nas condutas, mas a compaixão pouco apareceu na fala dos entrevistados dessa pesquisa. Contudo, esses profissionais sofrem com o trabalho e estão sujeitos aos “custos do cuidar”, porém mais vulneráveis a síndrome de burnout que pode ser compreendida segundo Maslasch (1976) por três fatores: exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal no trabalho. A presença da compaixão surge de forma pontual nesses trabalhadores, apontando que estão menos vulneráveis a síndrome da fadiga por compaixão.

Referências

Araujo, I. C., & Vasques-Menezes, I. (2018). Fadiga por compaixão: os custos do cuidado. Curitiba: CRV.

Figley, C. R. (1995). Compassion fatigue as secondary traumatic stress disorder: An overview. In C. R. Figley (Ed.), Compassion fatigue (pp. 1-20). New York: Brunnar/Mazel.

Lago, K., & Codo, W. (2010). Fadiga por compaixão: O Sofrimento dos profissionais em saúde.Petrópolis: Editora Vozes.

Maslach, C. (1976). Burnout. Human Behavior, 5(9), 16-22. Retirado de Disponível em: http://beta.orionsshoulders.com/Resources/articles/23_6526_Innanen%20H%3B%20Juvakka%20A%3B%20Salmela-Aro%20K%20(2009).pdf